O filme é uma das mais imersivas representações artísticas da produção cinematográfica Uma grande declaração de amor ao cinema, feita por um dos mais influentes diretores franceses de todos os tempos: A Noite Americana (La nuit américaine, de 1973), longa-metragem escrito e dirigido por François Truffaut. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Globo do Ouro na mesma categoria, o filme tem trama que acompanha as diversas situações que acontecem durante a produção de um filme. O longa ao utilizar-se da metalinguagem para representar a produção de um filme dentro do filme – em uma grande ode ao cinema, cheia de referências à sétima arte. Durante quase 115 minutos, Truffaut se propõe a proporcionar ao espectador, uma imersão no processo cinematográfico: a produção e alguns aspectos de pós-produção. As referências ao carinho que o diretor tem pela arte cinematográfica ficam mais evidentes nas tomadas em que aparecem livros de autoria ou sobre grandes diretores na capa, como Howard Hawks, Jean-Luc Godard, Alfred Hitchcock, Luis Buñuel, Carl Theodor Dreyer, Ingmar Bergman, Robert Bresson, Roberto Rossellini e Ernst Lubitsch. Através de diálogos, de diversos elementos da mise-en-scène e até situações de roteiro forma-se um leque de incontáveis referências à sétima arte. O próprio título já referencia o ato de fazer Cinema: “noite americana”, efeito utilizado na fotografia de um filme para dar a sensação noturna para uma cena gravada durante o dia. Já na introdução do filme, junto aos créditos iniciais, os bastidores da produção cinematográfica são apresentados, com ondas de som aparecendo em tela, ilustrando a montagem de som de um filme. Uma surpresa é feita para o espectador logo na primeira cena da projeção: quando as imagens acompanham o personagem de Jean-Pierre Léaud durante toda uma passagem, que é interrompida pela voz do diretor – “Corta!”. Então, percebe-se que aquela cena é, na verdade, do filme dentro do filme. Partindo disso, a cena é retrabalhada em um formato parecido com um making off. Jean-Pierre Léaud se destaca no papel de Alphonse, um ator medíocre e com diversas indecisões que constantemente oscilam entre o cômico e o dramático. Léaud já tinha trabalhado com Truffaut na filmagem da saga semiautobiográfica do diretor, como Antoine Doinel – que tem semelhanças temperamentais com Alphonse. Também já havia trabalhado com diretores como Julien Duvivier, Jean Cocteau, Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. La noite américaine é um dos três filmes em que Truffaut tanto atua, como dirige – O Garoto Selvagem (L’Enfant Sauvage, de 1970) e O Quarto Verde (La Chambre Verte, de 1978) são os outros dois. Ferrand, o diretor interpretado pelo diretor, não é o protagonista, mas funciona como figura que dá o tom do filme, tanto com parte do alívio cômico, quanto como responsável por apresentar, através de diálogos, reflexões sobre a relação entre arte e realidade. O roteiro original de Truffaut, Jean-Louis Richard e Suzanne Schiffman vai além das gravações do longa fictício, comentando sobre a produção como um todo, assim como das relações entre os membros da equipe. Assim, intercalando cenas da gravação e outras externas que podemos perceber a amplitude de uma obra de cinema. Truffaut se aprofunda mais ao demonstrar a própria ligação com o Cinema, com cenas de um personagem de caráter semiautobiográfico: um pobre menino, quase que alter ego do diretor, por fascínio, rouba um cartaz do filme “Cidadão Kane” (Citizen Kane, de 1941). Essa passagem tem semelhança com a cena em que o alter ego infantil do diretor, Antoine Doinel, rouba uma foto da atriz Harriet Andersson. Sentenças como: “Um filme é como um trem que avança pela noite” e “Um diretor de filmes é alguém que responde todo tipo de pergunta” demonstram reflexões profundas sobre a sétima arte e, juntamente da própria película, demonstram uma forma de pensar o Cinema que une o glamoroso ao duramente realista. Uma metáfora interessante utilizada no filme é a do aparelho auditivo do personagem Ferrand: representando o fato da produção cinematográfica ser o único foco do personagem, impossibilitando-o de permitir-se ouvir qualquer assunto sem fazer relações diretas ou indiretas para a arte. O roteiro tem uma construção que pode até despertar em certos espectadores, a vontade de assistir Je Vous Presente Pamela, a produção dentro da produção. E, como no término de qualquer filme do Truffaut, quando a conclusão da obra fictícia ocorre, o espectador mais sensível fica com uma sensação de amargor, a vontade de ter mais daquele pequeno núcleo social e artístico tão envolvente e complexo, humano com qualquer pessoa. A Noite Americana acabou por sacramentar a briga entre Jean-Luc Godard e François Truffaut. Pouco tempo depois do lançamento do longa, Godard, que no passado fora grande amigo de Truffaut quando ambos trabalharam como críticos na revista Cahiers du Cinéma, tornando-se juntos, percursores do movimento Nouvelle Vague – ao lado de nomes como Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette. Na longa carta que Godard enviou a Truffaut criticando A Noite Americana, chega a chamar o colega de burro, acusando-o de trair o movimento artístico que consolidaram – condenando a predileção do colega pelo cinema norte-americano. O fato é que em La noite américaine se encontra a representação que François Truffaut fez do que é o cinema sob seu ponto de vista – demonstrando que a arte é maior do que a vida. Autor do texto – Willian Schütz.Contato por e-mail: willianschutz@hotmail.comImagens – Divulgação. Todos os direitos reservados à Warner Bros Pictures.