Crítico e assustadoramente comovente: “Coringa” é um drama denso que narra uma origem inédita para o Palhaço do Crime
A adaptação de um personagem de quadrinhos é um fenômeno cinematográfico, que dá novos ares à sétima arte Um mês depois da estreia nos cinemas mundiais, o longa-metragem “Coringa” (Joker), dirigido por Todd Phillips, transformou-se em um dos maiores fenômenos cinematográficos dos últimos tempos: uma adaptação de personagem de quadrinhos, que foge do maniqueísmo e torna-se um blockbuster (sucesso estrondoso de bilheterias) apresentando caráter autoral do diretor. Foi uma surpresa para boa parte do público, mesmo antes do lançamento, a escolha do cineasta Todd Philipps para a direção de “Coringa”: Phillips é famoso por assinar filmes de comédia como “Road Trip – Sem Regras” (Road Trip, de 2000), “Dias Incríveis” (Old School, de 2003) e a trilogia “Se Beber, Não Case!” (The Hangover). No entanto, em Joker, o diretor apresenta toda a sua bagagem de construção de cenas, um surpreendente ar de humor negro em um filme extremamente dramático, e, além de tudo, optou por transformar a trajetória do famoso vilão dos quadrinhos do Batman em uma produção com caráter autoral. “Coringa” é mais do que uma mera adaptação do vilão criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, em 1940, e que passou por inúmeras transformações e adaptações ao longo das décadas: o protagonista do longa – que Todd Phillips assina o roteiro juntamente de Scott Silver -, é uma reconstrução completa do personagem, sem receio de o recriar por completo – apesar de aproveitar inteligentemente as referências dos quadrinhos e dos cinemas. O icônico vilão já apareceu em diversas adaptações para o cinema, interpretado por atores que tornaram-se consagrados tanto entre o público fanático pelas revistas, quanto pelos cinéfilos. Cronologicamente, são os atores que encarnaram o “Palhaço do Crime”: Cesar Romero, Jack Nicholson, Heath Ledger, Jared Leto e Cameron Monaghan (este último, na série televisiva “Gotham”). No entanto, a comparação entre a interpretação dada pelo ator Joaquin Phoenix ao Coringa, com as de seus antecessores, são injustas, no mínimo: além da diferença de abordagem e densidade, o personagem do longa lançado neste ano carrega peso narrativo enorme, passa por transformações dramáticas e impactantes o suficiente para que não seja surpreende a comoção do público com Arthur Fleck – que, com o passar dos eventos da trama, assume-se como “Coringa”. No filme, o Coringa tem pouco tempo de tela. A história desenvolve-se muito mais nos dramas cotidianos de Arthur Fleck – como, aos poucos, ele perde o controle da própria mente instável, por conta de uma inadequação social esmagadora. Então, como uma explosão incontrolável de revolta, Arthur torna-se um vilão. O interessante é que há grande humanização nessa transformação gradual – o bandido retratado em tela não é mau por natureza, mas vítima da sociedade em decadência e da própria mente igualmente desgastada. Para tanto, Joaquin Phoenix mostrou-se a escolha ideal: o ator transmite o drama tanto fisicamente, quanto pelas expressões marcantes – que são evidenciadas nos planos fechados e na utilização de enquadramento como: primeiro plano, primeiríssimo plano e plano médio curto. Tais decisões visuais são creditadas ao diretor de fotografia, Lawrence Sher – que também tem o mérito de ajustar até a paleta de cores das cenas, conforme a evolução dos personagens: passando de tons frios e sombrios, para cores vibrantes e quentes. Uma característica marcante do Coringa, em todas as suas versões, é a risada. Ao encarnar o personagem, Joaquin Phoenix utiliza-se de elementos do roteiro e de um profundo processo de imersão no psicológico de Arthur Fleck, para trabalhar tal risada de diversas formas, modificando-a: por vezes, consequente de um distúrbio patológico; outras vezes, pela ironia situacional; assim como, no último ato, pelo ar triunfal de uma autodescoberta. Phoenix utiliza-se do método de atuação Constantin Stanislasvki, que consiste em remeter-se a ações e experiências já vividas, para relembrá-las e aplicar expressões e nuances à atuação. Caso o ator “do método” não tenha vivido experiências parecidas com as de seu personagem, cabe a ele literalmente viver como tal dentro e fora do set de filmagem. É a utilização do método que faz a entrega de Joaquin Phoenix parecer ainda mais forte – considerando que o ator emagreceu cerca de 23 quilos somente para encarnar a nítida fragilidade física e psicológica de Arthur Fleck. As atuações de Zazie Beetz, como Sophie Dumond – interesse romântico do protagonista – e de Frances Conroy, como a mãe de Arthur – Penny Fleck – cumprem razoavelmente bem seus papéis de servir como gancho desencadeador de ações cruciais do personagem. Também integram o elenco: Brian Tyree Henry, Bill Camp, Brett Cullen, Bryan Callen, Carrie Louise Putrello, Dante Pereira-Olson, Douglas Hodge, entre outros nomes. Todd Phillips também tem méritos pela ambientação do filme: passando-se no final da década de 1970, a cidade de Gotham City remete aos bairros perigosos da Nova Iorque da mesma década – para isso, referências de filmes como “Taxi Driver” (1976), de Matin Scorsese e “Um Dia de Cão” (Dog Day Afternoon, lançado por Sidney Lumet em 1975), mostram-se evidentes. A sétima arte também é homenageada em “Coringa”, pois é possível perceber nitidamente de outros filmes como: ” O Homem Que Ri ” (The Man Who Laughs), de Paul Leni (1928), que serviu como inspiração para o personagem que é adaptado; “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), de Ken Kesey (1975), que retrata a instabilidade mental e a loucura de maneira humanizada, mesclando o drama com a comédia; “O Rei da Comédia” (The King of Comedy), de Martin Scorsese (1982), que é referenciado explicitamente com a magistral presença do ator Robert De Niro; “O Mestre” (The Master), de Paul Thomas Anderson (2012), no qual o próprio Joaquin Phoenix interpretou o protagonista, que tem semelhanças físicas e psicológicas com Arthur Fleck; entre tantos outros. O contexto social da cidade de Gotham City, na qual a história se desenrola, também é bastante relevante: passando por instabilidades políticas, altas taxas de criminalidade, marginalização das minorias e, para compactuar com a ambiência caótica, greve dos lixeiros. No entanto, alguns desses aspectos são deixados na superficialidade, a…
