Horror ácido – “Brinquedo Assassino”, o reboot da franquia do boneco Chucky

Uma releitura ousada, mas problemática, do icônico personagem criador por Don Mancini O cinema hollywoodiano passa por um momento delicado: uma aparente crise de criatividade coletiva, somada ao conteúdo massivamente distribuído, modismo pelo nostálgico e tendências mercadológicas, transformam a fase atual no cinema em uma espécie de “Era do Remake”. Incontáveis filmes antigos foram refilmados nos últimos anos, fazendo com que parte da indústria cinematográfica se saturasse de refilmagens (popularmente mais conhecidas como remakes), adaptações cross-mídia e continuações de franquias longínquas. Dirigido por Lars Klevberg, cujo currículo como diretor ainda é curto, “Brinquedo Assassino” (Child’s Play), que estreou nos cinemas no mês de agosto, é um dos casos em que o remake pode ser considerado bem-vindo. Tal fato dá-se justamente do longa não parecer necessariamente um remake, mas uma espécie de releitura do filme homônimo produzido há três décadas. Decisões criativas dão uma roupagem totalmente nova ao icônico vilão Chucky, fazendo com que a versão dirigida por Klevberg tome como molde conceitos gritantemente diferentes aos do “clássico” filme dirigido por Tom Holland. No novo Child’s Play, um boneco altamente tecnológico, com inteligência artificial e que pode conectar-se a outros aparelhos, é a nova sensação mercadológica. Quando Karen Barclay (Aubrey Plaza), presenteia o filho Andy (Gabriel Bateman) com um desses brinquedos, a violência começa a aterrorizar a vida entorno da família. Acontece que o boneco de Andy foi alterado, por um funcionário revoltado da fábrica, para não distinguir o que é ou não violento. Então, aos poucos, o boneco Chucky torna-se uma pequena, porém destrutiva, máquina mortífera. Mesmo assumidamente calcado pela despretensão narrativa, o longa não é vazio de reflexões pertinentes. Em alguns momentos, até o humor ácido é utilizado pelo roteiro. A crescente submissão da sociedade atual para com a tecnologia em constante desenvolvimento é uma crítica inteligente que se reafirma ao longo de todo o filme – mesmo perdendo a força ao longo dos atos. Já no início do longa outra crítica é feita: as condições trabalhistas às quais se sujeitam alguns setores da sociedade. Questões como o deslocamento social juvenil, conceito desconstruído de família, machismo e até racismo, são pincelados ao longo da narrativa. No entanto, o filme não tem grandes pretensões para com o desenvolvimento dos personagens. A profundidade que poderia ser aplicada aos participantes da trama faz com que o roteiro perca força e que bom elenco não seja devidamente bem aproveitado. Alguns dos atuantes no longa são: Brian Tyree Henry, Amber Taylor, Beatrice Kitsos, Carlease Burke, David Lewis. O destaque maior vai para Mark Hamill (eternamente popular como o personagem Luke Skywalter, de Star Wars), que dubla do boneco assassino. Mesmo se perdendo no terceiro ato, “Brinquedo Assassino” não é desnecessariamente longo, nem cansativo. Um dos méritos do filme é não se render à linguagem padrão do terror comercial comumente visto na atualidade. O suspense é bem trabalhado em certos momentos e a cinematografia faz com que, em diversos planos, o vilão tenha uma grandiosidade metafórica. O longa não é pretensioso, mas consegue prender o espectador e até provocar reflexões interessantes em meio ao caos narrativo que se espalha ao longo dos arcos. Autor do texto – Willian Schütz.Contato por e-mail – willianschutz@hotmail.com Imagens: Divulgação. Direitos de imagens das produtoras Orion Pictures, Bron Studios, KatzSmith Productions.

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“Simonal” e a versão dublada de “Arterix e o Segredo da Poção Mágica”, são exclusividades no Cinemulti, em Florianópolis

O longa brasileiro “Bacural” também é um dos destaques na programação de 12 a 18 de setembro da primeira sala de cinema do Sul da Ilha Na programação de 12 a 18 de setembro, o Cinemulti apresenta dois filmes com exclusividade em Florianópolis: o nacional “Simonal”, que conta a trajetória controversa do cantor da MPB, no horário das 13h e a animação “Asterix e o Segredo da Poção Mágica”, na versão dublada, às 15h. A aventura francesa que tem estreia prevista para o dia 19 de setembro no Brasil, tem sua estreia antecipada.   Também entre em cartaz “Bacurau”, longa vencedor do Prêmio do Júri em Cannes e selecionado para outros grandes festivais de cinema. O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é exibido no horário das 18h45. Seguem em cartaz os filmes “Yesterday”, do cineasta britânico Danny Boyle, às 16h40 e o mais recente filme do diretor estadunidense Quentin Tarantino, “Era Uma Vez em Hollywood”, às 21h05. O Cinemulti fica no Multi Open Shopping, no Rio Tavares, em Florianópolis. Os ingressos custam R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia (idosos, estudantes e professores mediante comprovação) nas segundas, terças e quartas, e nas quintas, sextas, sábados, domingos e feriados o valor cobrado para a inteira é de R$ 25 e de R$ 12,50 para a meia entrada. O pagamento pode ser feito em dinheiro, cartão (crédito e débito) e com bitcoin. Mais detalhes da programação: Simonal (Biografia/Drama) – sessão às 13h Sinopse: Dono de voz marcante, carisma encantador e charme irresistível, Wilson Simonal (Fabrício Boliveira) nasceu para ser uma das maiores vozes de todos os tempos da música brasileira. No entanto, após anos de sucesso conquistado com muito trabalho, suas finanças descontroladas o levam a, num rompante de ignorância, tomar decisões que marcarão para sempre sua carreira.    Asterix e o Segredo da Poção Mágica (Aventura/Comédia) Dublada – sessão às 15h Sinopse: Após uma queda durante a colheita de visco, o druida Panoramix decide que chegou a hora de garantir o futuro da aldeia. Acompanhado por Astérix e Obélix, ele irá viajar pela Gália àprocura de um druida jovem e talentoso que possa ser treinado e que seja digno de conhecer o segredo da poção mágica. Yesterday (Comédia) – sessões às 16h40 Sinopse: Após sofrer um acidente, um cantor-compositor (Himesh Patel) acorda numa estranha realidade, onde ele é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, o protagonista se torna um sucesso gigante, mas a fama tem seu preço. Bacurau (Drama/Fantasia) – sessão às 18h45 Sinopse: Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa. Era uma vez em Hollywood (Drama) – sessões às 21h05 Sinopse: Los Angeles, 1969. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de TV que, juntamente com seu dublê, está decidido a fazer o nome em Hollywood. Para tanto, ele conhece muitas pessoas influentes na indústria cinematográfica, o que os acaba levando aos assassinatos realizados por Charles Manson na época, entre eles o da atriz Sharon Tate (Margot Robbie), que na época estava grávida do diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha). Autor da publicação – Willian S. Schütz.Contato por e-mail: willianschutz@hotmail.comImagens – Divulgação. Dica final: uma boa opção para conferir a programação dos cinemas comerciais e alternativos de Florianópolis é o Guia Floripa.

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Uma declaração de amor – “A Noite Americana” e a cinefilia de François Truffaut

O filme é uma das mais imersivas representações artísticas da produção cinematográfica Uma grande declaração de amor ao cinema, feita por um dos mais influentes diretores franceses de todos os tempos: A Noite Americana (La nuit américaine, de 1973), longa-metragem escrito e dirigido por François Truffaut. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e do Globo do Ouro na mesma categoria, o filme tem trama que acompanha as diversas situações que acontecem durante a produção de um filme. O longa ao utilizar-se da metalinguagem para representar a produção de um filme dentro do filme – em uma grande ode ao cinema, cheia de referências à sétima arte. Durante quase 115 minutos, Truffaut se propõe a proporcionar ao espectador, uma imersão no processo cinematográfico: a produção e alguns aspectos de pós-produção. As referências ao carinho que o diretor tem pela arte cinematográfica ficam mais evidentes nas tomadas em que aparecem livros de autoria ou sobre grandes diretores na capa, como Howard Hawks, Jean-Luc Godard, Alfred Hitchcock, Luis Buñuel, Carl Theodor Dreyer, Ingmar Bergman, Robert Bresson, Roberto Rossellini e Ernst Lubitsch. Através de diálogos, de diversos elementos da mise-en-scène e até situações de roteiro forma-se um leque de incontáveis referências à sétima arte. O próprio título já referencia o ato de fazer Cinema: “noite americana”, efeito utilizado na fotografia de um filme para dar a sensação noturna para uma cena gravada durante o dia. Já na introdução do filme, junto aos créditos iniciais, os bastidores da produção cinematográfica são apresentados, com ondas de som aparecendo em tela, ilustrando a montagem de som de um filme. Uma surpresa é feita para o espectador logo na primeira cena da projeção: quando as imagens acompanham o personagem de Jean-Pierre Léaud durante toda uma passagem, que é interrompida pela voz do diretor – “Corta!”. Então, percebe-se que aquela cena é, na verdade, do filme dentro do filme. Partindo disso, a cena é retrabalhada em um formato parecido com um making off. Jean-Pierre Léaud se destaca no papel de Alphonse, um ator medíocre e com diversas indecisões que constantemente oscilam entre o cômico e o dramático. Léaud já tinha trabalhado com Truffaut na filmagem da saga semiautobiográfica do diretor, como Antoine Doinel – que tem semelhanças temperamentais com Alphonse. Também já havia trabalhado com diretores como Julien Duvivier, Jean Cocteau, Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. La noite américaine é um dos três filmes em que Truffaut tanto atua, como dirige – O Garoto Selvagem (L’Enfant Sauvage, de 1970) e O Quarto Verde (La Chambre Verte, de 1978) são os outros dois. Ferrand, o diretor interpretado pelo diretor, não é o protagonista, mas funciona como figura que dá o tom do filme, tanto com parte do alívio cômico, quanto como responsável por apresentar, através de diálogos, reflexões sobre a relação entre arte e realidade. O roteiro original de Truffaut, Jean-Louis Richard e Suzanne Schiffman vai além das gravações do longa fictício, comentando sobre a produção como um todo, assim como das relações entre os membros da equipe. Assim, intercalando cenas da gravação e outras externas que podemos perceber a amplitude de uma obra de cinema. Truffaut se aprofunda mais ao demonstrar a própria ligação com o Cinema, com cenas de um personagem de caráter semiautobiográfico: um pobre menino, quase que alter ego do diretor, por fascínio, rouba um cartaz do filme “Cidadão Kane” (Citizen Kane, de 1941). Essa passagem tem semelhança com a cena em que o alter ego infantil do diretor, Antoine Doinel, rouba uma foto da atriz Harriet Andersson. Sentenças como: “Um filme é como um trem que avança pela noite” e “Um diretor de filmes é alguém que responde todo tipo de pergunta” demonstram reflexões profundas sobre a sétima arte e, juntamente da própria película, demonstram uma forma de pensar o Cinema que une o glamoroso ao duramente realista. Uma metáfora interessante utilizada no filme é a do aparelho auditivo do personagem Ferrand: representando o fato da produção cinematográfica ser o único foco do personagem, impossibilitando-o de permitir-se ouvir qualquer assunto sem fazer relações diretas ou indiretas para a arte. O roteiro tem uma construção que pode até despertar em certos espectadores, a vontade de assistir Je Vous Presente Pamela, a produção dentro da produção. E, como no término de qualquer filme do Truffaut, quando a conclusão da obra fictícia ocorre, o espectador mais sensível fica com uma sensação de amargor, a vontade de ter mais daquele pequeno núcleo social e artístico tão envolvente e complexo, humano com qualquer pessoa. A Noite Americana acabou por sacramentar a briga entre Jean-Luc Godard e François Truffaut. Pouco tempo depois do lançamento do longa, Godard, que no passado fora grande amigo de Truffaut quando ambos trabalharam como críticos na revista Cahiers du Cinéma, tornando-se juntos, percursores do movimento Nouvelle Vague – ao lado de nomes como Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette. Na longa carta que Godard enviou a Truffaut criticando A Noite Americana, chega a chamar o colega de burro, acusando-o de trair o movimento artístico que consolidaram – condenando a predileção do colega pelo cinema norte-americano. O fato é que em La noite américaine se encontra a representação que François Truffaut fez do que é o cinema sob seu ponto de vista – demonstrando que a arte é maior do que a vida. Autor do texto – Willian Schütz.Contato por e-mail: willianschutz@hotmail.comImagens – Divulgação. Todos os direitos reservados à Warner Bros Pictures.

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