A temporalidade contemplativa – crítica do filme “O Irlandês”, de Martin Scorsese

O mais recente longa de Martin Scorsese é a produção da Netflix com mais indicações ao Oscar 2020, com dez nomeações

Mais uma vez a dupla Robert De Niro e Martin Scorsese é amplamente comentada pelo público cinéfilo e pela imprensa mundial. O novo longa-metragem “O Irlandês” (The Irishman, no original) vem com força na temporada de premiações cinematográficas 2019-2020. Só para o “grande prêmio da academia”, o Oscar, são 10 indicações. Seguido por “História de Um Casamento”, que tem 6 nomeações, o drama de Scorsese é a produção de maior destaque da Netflix.

Tanto sucesso é resultado de múltiplos fatores: a liberdade criativa total cedida ao diretor; o orçamento elástico de aproximadamente US$ 175 milhões; o elenco de inquestionável renome que traz às telas Robert De Niro (Frank Sheeran), Al Pacino (como Jimmy Hoffa), Joe Pesci (Russell Bufalino), Anna Paquin (Peggy Sheeran), Jesse Plemons (Chuckie O’Brien), entre outros; experimentalismos cinematográficos que envolvem computação gráfica e tomadas nunca antes feitas por Scorsese; tempo hábil para produção, além de um roteiro irretocável – mesmo que pontuado por polêmicas.

O filme de gângster é inspirado no livro “I Heard You Paint Houses“, escrito por Charles Brandt, que conta a história real de Frank Sheeran, conhecido como “O Irlandês”. Francis Joseph Sheeran (1920 – 2003) foi um veterano na 2ª Guerra Mundial. Após o retorno ao cotidiano norte-americano, Sheeran torna-se motorista de caminhão. Sua história continua na normalidade até o momento em que se envolve com Russell Bufalino e Jimmy Hoffa, que têm envolvimentos com a máfia e os grandes sindicatos de trabalhadores.

Por se tratar de uma história real que transita ao longo de décadas, o filme traz diversas polêmicas à tona: comentários políticos sobre os governantes vigentes nas épocas retratadas – o mais forte deles, ambientado no contexto do assassinato do então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy -, tudo isso enquanto como os acontecimentos da narrativa são todos representados sob a ótica do protagonista – que está muito longe de ser um mocinho.

A relação entre os personagens de De Niro e Pacino é um dos pontos altos do filme

A temporalidade narrativa em The Irishman é fascinante: ao longo da projeção, vemos diversas épocas e fases da vida de Frank Sheeran sendo intercaladas com verdadeiros saltos entre passado, presente e futuro narrativo. Além disso, há uma sutileza brilhante na ambientação, que reconstitui décadas através da mise-en-scéne – montagem de cenários, figurinos e fotográfica. Enquanto isso, os acontecimentos e diálogos situam o público no contexto histórico da trama, sem precisar de demarcações como legendas ou narrações exclusivamente para essa função.

Com o objetivo de representar o passar do tempo para os personagens, o recurso da computação gráfica os rejuvenesceu – com auxílio de maquiagem. Na maior parte do filme, a reconstrução fascial é muito bem-feita – exceto por algumas tomadas, ao exemplo do flashback de Frank atuando na 2ª Guerra Mundial.

Conhecimento prévio sobre a história dos Estados Unidos e noção de quem foram, na realidade, os três homens que têm destaque na trama de “O Irlandês” pode ser um diferencial para aproveitar melhor essa experiência cinematográfica. Uma boa opção, para conhecer melhor o personagem encarnado por Al Pacino, é o filme “Hoffa: Um Homem, Uma Lenda” (ou, simplesmente Hoffa), de 1992, que tem direção de Danny DeVito e é estrelado pelo emblemático Jack Nicholson.

Além de tudo, os três atores que compõem o principal eixo narrativo, Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, entregam atuações irretocáveis e repletas de nuances. Já Anna Paquin, dá sensibilidade emocional à, Peggy, filha de Frank Sheeran – que, aliás, poderia ter um destaque maior se a duração do filme não fosse tão extensa.

A duração… três horas e vinte e nove minutos. Pois é, 3h29. O filme mais longo de Martin Scorsese. No entanto, este longo longa é sobre o passar do tempo. A proposta é acompanhar a turbulenta vida de um homem inserido em um contexto complexo, cercado de pessoas, organizações e dramas pessoais. Não tornar-se maçante e cansativa, é, sem dúvidas, um dos maiores desafios, ao produzir uma cinebiografia tão cheia de detalhes e tão extensa. O roteiro mostra sua força justamente por isso: transita entre situações e gêneros de maneira muito fluida – até, por fim, terminar com um drama que transpassa, de maneira melancólica, reflexões e contemplações sobre o inevitável passar do tempo.

  • Temporada de premiações:

Além das 10 indicações ao Oscar 2020, a nona colaboração entre Robert De Niro e Martin Scorsese é o filme com maior destaque no British Academy Film Awards (BAFTA) desta temporada, com outras 10 indicações. A cerimônia é no dia 2 de fevereiro de 2020.

Já no famoso prêmio da imprensa internacional, o Globo de Ouro, foram 5 indicações. O SAG (Sindicato de Atores) indicou a obra em 4 categorias. Porém, “O Irlandês” saiu de mãos vazias dessas duas premiações.

A situação quase repetiu-se no Critics’ Choice Awards: das 14 indicações, venceu apenas como “Melhor Elenco”.


São poucos os filmes que passam a sensação de tornarem-se clássicos instantâneos. The Irishman é um desses raros casos: certamente é uma das obras-primas dos filmes de gângster e da sétima arte como um todo. Marcando a nona indicação de Martin Scosese ao Oscar, o filme certamente resistirá bravamente ao tempo. Também é uma das últimas colaborações dos já idosos atores e direção.

Texto: Willian Schütz
Contato por e-mail: willianschutz@hotmail.com
Imagens: Divulgação. Direitos reservados à produtora Netflix.

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